domingo, 7 de julho de 2019

Pesquisadores desenvolvem 1º sistema orgânico de maracujá do Brasil na BA com capacidade para dobrar produção


O primeiro sistema orgânico do Brasil para a produção do maracujazeiro foi desenvolvido na Bahia por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O anúncio foi feito pela empresa no final de junho.

Conforme a Embrapa, experimentos realizados no município de Lençóis, na Chapada Diamantina, Bahia, mostraram que o sistema criado apresenta níveis de produtividade muito superiores aos registrados no sistema convencional no estado: 28 toneladas por hectare (t/ha) contra 10,5 t/ha, em média.

O resultado também supera em mais de duas vezes a produtividade média nacional, de 13,5 t/ha.

Por enquanto, segundo a Embrapa, o pacote tecnológico está restrito a essa região da Bahia, mas a ideia é estendê-lo a outros polos produtores no Brasil.

Os pesquisadores constataram que o aumento de produtividade foi alcançado com o novo sistema mesmo com a exposição da cultura a viroses do maracujazeiro.



Para se ter uma ideia do potencial de dano dessas doenças, no primeiro ciclo do sistema orgânico, antes da contaminação da lavoura, a produção chegou a atingir uma média de 37 t/ha. O controle das viroses e o desenvolvimento de variedades de plantas de maracujá resistentes ainda estão entre os grandes desafios para a pesquisa agropecuária.

Com mais de 16 mil hectares plantados, a Bahia é o maior produtor de maracujá no País — 170.910 toneladas, o que representa 31% da produção nacional, segundo dados de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com a Embrapa, apesar de não haver informações oficiais disponíveis para o sistema orgânico, acredita-se que 0,5% da área cultivada no estado esteja nesse sistema, e a demanda é crescente.

Para ser considerado orgânico, o produtor deve usar técnicas ambientalmente sustentáveis e não pode utilizar agrotóxicos nem adubos químicos solúveis.

Preparação do solo


As primeiras recomendações descritas no sistema referem-se ao preparo do solo, pois, conforme os especialistas, a melhoria dos seus atributos químicos, físicos e biológicos é a base para o sucesso da produção.

No caso dos experimentos em Lençóis, antes de começar o plantio, diz a Embrapa, houve um trabalho longo de correção do solo, extremamente pobre em nutrientes para o cultivo.

“Inicialmente, foi feita aplicação de calcário e gesso para elevar o pH do solo e os teores de cálcio e magnésio. Após 12 meses, observou-se, por exemplo, aumento de seis vezes no teor de cálcio. E o teor de alumínio reduziu a mais da metade,” relatou, em nota divulgada pela Embrapa, a cientista e pesquisadora da Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA) Ana Lúcia Borges.

Outra etapa importante de preparo do solo no sistema orgânico, dizem os cientistas, é o pré-cultivo da área utilizando plantas melhoradoras.

Essa prática, afirma Borges, beneficia as condições físicas, químicas e biológicas do solo por meio do cultivo de leguminosas e não leguminosas, a exemplo de sorgo forrageiro, milheto e feijão-de-porco.

Além disso, possibilita o aumento dos níveis de matéria orgânica. Em Lençóis, a prática foi iniciada 30 dias após a correção da acidez do solo.


Pragas e doenças


O sistema orgânico do maracujazeiro traz informações sobre as principais espécies de insetos-praga que atacam a cultura e suas formas de controle. Entre elas estão a lagarta-desfolhadora, a broca-do-maracujazeiro, o percevejo, a mosca-das-frutas, o besouro-da-flor-do-maracujazeiro, a formiga-cortadeira e os ácaros.

Há também os métodos de manejo integrado das principais doenças. O maracujazeiro pode ser atacado por fungos, bactérias e vírus, com intensidade de danos que depende das condições climáticas e dos aspectos culturais.

“No caso das pesquisas em Lençóis, tivemos problemas com lagarta, besouro, vírus e formigas. Os piores foram os vírus, pois não há controle e nem variedades de plantas resistentes aos seus ataques”, afirmou o entomologista Antonio Nascimento, pesquisador da Embrapa.

Nos experimentos, o problema não chegou a ser tão grave porque atingiu somente a planta. Quando chega ao fruto, causa deformação, baixo rendimento do suco e endurecimento da casca, tornando-o inviável para a comercialização.

A Embrapa informou que, nos sistemas orgânicos, é preciso priorizar a utilização de material adaptado às condições locais e tolerantes a pragas e doenças, como acontece, por exemplo, com a cultura da banana. Mas, no caso do maracujá, ainda não foram encontradas variedades resistentes a viroses, tornando ainda mais desafiador o cultivo orgânico dessa cultura.

Para driblar o problema, os pesquisadores buscaram plantas que entram em produção precocemente, de forma que produzam o máximo possível antes da incidência de vírus.

Outra linha de ação que será iniciada pelos pesquisadores é a clonagem de plantas produtivas livres de virose. A técnica consiste em retirar e enraizar as estacas em ambiente protegido.

A ideia é que o sistema orgânico desenvolvido especificamente para a Chapada Diamantina sirva de norteador para outras regiões.

G1 Bahia 

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